NFT, DFT, slab: qual sistema usar com substrato de coco
Atualizado em agosto de 2026 · 10 min de leitura
A hidroponia abrange dezenas de configurações, mas no Brasil os sistemas mais difundidos se dividem em dois grandes grupos: os que usam filme de nutrientes (NFT e DFT), onde o substrato aparece apenas no cubo de propagação, e os sistemas em substrato contínuo (slabs, calhas, growbags e bancadas), onde o material de cultivo é o meio de crescimento da planta ao longo de todo o ciclo. Este guia compara cada sistema, explica qual substrato de coco é indicado para cada um e apresenta volumes de referência por planta com base em dados da Embrapa e de fontes setoriais.
NFT (Nutrient Film Technique)
O NFT é o sistema hidropônico mais difundido no Brasil, especialmente para a produção de alface e folhosas. O princípio é simples: uma lâmina fina de solução nutritiva (o "filme") circula continuamente por canais inclinados onde as raízes ficam parcialmente imersas. O substrato é usado apenas no cubo de propagação — um pequeno bloco onde a muda é germinada e enraizada antes de ser transferida para o canal.
Como o substrato fica em contato direto com a solução nutritiva durante todo o ciclo, mesmo em quantidade mínima, a exigência de qualidade é máxima. O cubo de propagação deve ser feito com pó de coco fino tratado (tamponado com cálcio), com CE abaixo de 0,5 mS/cm e pH na faixa de 5,5 a 6,2. Qualquer excesso de sódio ou potássio retido nos sítios de troca da fibra será liberado diretamente na solução, contaminando todo o sistema.
As principais culturas em NFT no Brasil são alface (crespa, lisa, americana, roxa), rúcula, agrião, couve, manjericão e outras folhosas de ciclo curto. O ciclo típico é de 30 a 45 dias, o que significa alta rotatividade do substrato de propagação.

DFT (Deep Flow Technique)
O DFT opera com uma lâmina de solução nutritiva mais profunda que o NFT, geralmente em mesas ou bancadas com solução estática aerada ou com circulação lenta. É utilizado principalmente para folhosas, com a vantagem de maior estabilidade na solução nutritiva — a maior massa de líquido dilui flutuações de CE e pH com mais facilidade.
Assim como no NFT, o substrato de coco no DFT aparece apenas no cubo de germinação. A exigência de CE é igualmente rigorosa: abaixo de 0,5 mS/cm, com pH entre 5,5 e 6,2. A principal diferença prática em relação ao NFT é que o DFT tolera ligeiramente melhor variações pontuais de pH e CE graças ao maior volume de solução em contato com as raízes.
Slab para tomate e hortaliças de fruto
Nos sistemas em slab, o substrato de coco é o meio de cultivo principal — as raízes crescem e se desenvolvem dentro do slab ao longo de todo o ciclo produtivo. Trata-se de uma "bolsa" alongada de substrato comprimido que, uma vez hidratado, expande na proporção de aproximadamente 4:1 (quatro litros hidratados para cada litro seco comprimido).
Para tomate, a referência da Embrapa é de 8 a 12 litros de substrato por planta no sistema brasileiro, enquanto o sistema colombiano opera com volumes mais reduzidos, de 4 a 5 litros por planta, sob fertirrigação mais frequente e controlada. A diferença de volume reflete estratégias distintas de manejo: o sistema brasileiro com maior volume oferece margem de segurança contra flutuações de CE e pH na zona radicular; o sistema colombiano exige monitoramento e automação de fertirrigação mais precisos.
O substrato indicado para slabs de tomate é o pó de coco fino tratado (tamponado com cálcio), com CE entre 0,5 e 1,0 mS/cm e pH de 5,5 a 6,5. O limiar de CE na zona radicular durante o ciclo produtivo merece atenção especial: pesquisas publicadas na Springer/Plant and Soil demonstram que, em tomate cultivado em lã de rocha (um substrato com dinâmica comparável), a depressão de produtividade começa acima de 2,5 dS/m a 25 graus Celsius, com perdas de 5% a 7% por cada dS/m adicional. Esse dado serve de referência cautelar também para cultivo em substrato de coco.
Slab e calha para morango semi-hidropônico
O morango é a cultura de maior crescimento em semi-hidroponia no Brasil. A Embrapa Uva e Vinho desenvolve há anos o Sistema de Produção de Morangos Semi-Hidropônicos, adaptado de modelos europeus e em parceria com produtores brasileiros. A Região Sul (RS, SC, PR) e São Paulo (com destaque para Piedade/SP) são os polos de adoção mais consolidados.
O volume de substrato por planta para morango é de 1,5 a 2,5 litros, em slabs ou calhas suspensas. A cultura é altamente sensível a sais — o substrato deve ter CE abaixo de 0,5 mS/cm, com tamponamento com cálcio obrigatório. O pH ideal fica entre 5,5 e 6,2.
Em Santa Catarina, dados da Epagri/Cepa indicam uma produção de 8.600 toneladas de morango em 254 hectares na safra 2017/18, com produtividade em sistemas semi-hidropônicos podendo atingir cerca de 80 toneladas por hectare, contra 60 t/ha na média do cultivo em solo. Essa diferença de produtividade é um dos principais motores da migração para sistemas suspensos com substrato.
Estudos da Frontiers in Plant Science confirmam que o substrato de coco pode ser reutilizado com sucesso por pelo menos dois ciclos de produção em morango, desde que recondicionado entre safras (lavagem, sanitização e re-tamponamento). A durabilidade do pó fino em condições de uso contínuo é de 1,5 a 2 anos.
Growbag para hortaliças e pimentão
Os growbags são sacos de substrato de 15 a 20 litros, utilizados para hortaliças de fruto como pimentão, pepino e berinjela. O formato permite flexibilidade de layout na estufa e fácil substituição ao final do ciclo.
O substrato indicado é pó de coco fino, com CE entre 0,5 e 1,0 mS/cm para culturas de sensibilidade média. A drenagem em growbag tende a ser boa graças à profundidade do saco, mas é fundamental garantir furos de drenagem adequados na base para evitar acúmulo de solução.
Growbags são reutilizáveis por 2 a 3 ciclos, e a recomendação é recondicionar o substrato entre ciclos com lavagem e, se necessário, re-tamponamento.
Bancada para ervas e aromáticas
Ervas aromáticas como manjericão, tomilho, alecrim, cebolinha e hortelã são cultivadas em vasos de 0,5 a 2 litros dispostos em bancadas. O substrato de coco fino é adequado, e a tolerância a CE é mais flexível do que nas culturas de fruto — valores entre 0,5 e 1,5 mS/cm são aceitáveis para a maioria das espécies.
A vantagem do substrato de coco em bancadas de ervas é a boa retenção de umidade combinada com aeração suficiente para raízes relativamente superficiais. A vida útil do substrato nesse formato é longa: 1,5 a 2 anos sem necessidade de substituição completa.
Qual granulometria para cada sistema
| Sistema | Substrato indicado | Volume / planta | CE máxima |
|---|---|---|---|
| NFT (folhosas) | Pó fino tratado | Cubo de propagação | < 0,5 mS/cm |
| DFT (folhosas) | Pó fino tratado | Cubo de germinação | < 0,5 mS/cm |
| Slab (tomate) | Pó fino em slab | 8-12 L (Embrapa) / 4-5 L (colombiano) | 0,5-1,0 mS/cm |
| Slab/calha (morango) | Pó fino tratado | 1,5-2,5 L | < 0,5 mS/cm |
| Growbag (hortaliças) | Pó fino | 15-20 L | 0,5-1,0 mS/cm |
| Bancada (ervas) | Pó fino | 0,5-2 L | 0,5-1,5 mS/cm |
Economia de água e adoção regional
Sistemas hidropônicos bem ajustados podem economizar ate 70% de água em comparação com o cultivo tradicional em solo, segundo dados reportados por fontes setoriais brasileiras. Essa eficiência hídrica, combinada com a possibilidade de cultivo em ambiente protegido, explica a concentração regional da hidroponia no Brasil: a Região Sul (RS, SC, PR) lidera a adoção de cultivo sem solo, impulsionada pelo clima frio que favorece estufas, seguida por São Paulo (Piedade e cinturão verde).
A escolha do sistema e do substrato adequados são interdependentes. Um slab de qualidade inferior em um sistema de tomate de alto valor pode comprometer toda a safra. Da mesma forma, um cubo de propagação com CE alta em um sistema NFT contamina a solução de centenas de plantas. A regra prática é clara: quanto menor a quantidade de substrato no sistema, maior a exigência de qualidade desse substrato.
Fontes
- HidroGood. "Produção hidropônica já ocupa até três mil hectares no Brasil."
- Embrapa. "Embrapa apresenta o Sistema de Produção de Morangos Semi-hidropônicos."
- Campo e Negócios. "Morango semi-hidropônico: como funciona o cultivo suspenso?"
- Plataforma Hidroponia. "Vantagens do sistema semi-hidropônico atraem produtores de morango em Piedade/SP."
- Springer / Plant and Soil. "Yield and quality of rockwool-grown tomatoes as affected by variations in EC-value and climatic conditions." DOI: 10.1007/BF02182034.
- Frontiers in Plant Science (2023). "Reuse of coir, peat, and wood fiber in strawberry production." DOI: 10.3389/fpls.2023.1307240.